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domingo, 25 de novembro de 2012

Fazer Advogados Gestores



Texto extraído parcialmente, da matéria “Gestores além da Gestão”, da REVISTA EXAME – Portugal, do mês de novembro de 2012, n.º 343. Com algumas adaptações entre chaves [...] para melhor compreensão dos leitores brasileiros.

A partir do final dos anos 80, tornou-se responsável pelo mundo guloso que passou a povoar a mente dos miúdos [crianças] portugueses, já que foi a “sua” Matutano (insígnia da multinacional americana) [no Brasil, Elma Chips] que colocou a circular as famosas carrinhas amarelas que distribuíam os pacotes de batata frita. Introduziu no mercado luso novas marcas de chupa-chupas [pirulitos], gomas, tabletes de chocolate, bolos, croissants e outras tantas guloseimas, inaugurando uma nova era do marketing em Portugal.
Com curso de Contabilidade e, mais tarde, licenciatura em Gestão, pelo Instituto Superior das Ciências Sociais do Trabalho e das Empresas, fez do mundo das multinacionais a porta de entrada numa carreira na gestão, primeiro, no setor farmacêutico e, depois, 13 anos na distribuição alimentar. Andou também pela área dos seguros até, em 2003, passar para a organização onde se mantém até hoje. “Precisavam de alguém para fazer a sofisticação e a internacionalização da empresa”, conta o gestor, para explicar a sua chegada à sociedade de advogados SRS & Associados (antes, Simmons & Simmons Rebelo de Sousa). Pedro Rebelo de Sousa, um dos dez sócios de capital do escritório, convidou-o para managing director num momento crucial para o mundo da advocacia, cada vez mais competitivo e onde as sociedades se regem cada vez mais pelos princípios base de qualquer empresa: ter cash flow e alimentar um negócio competitivo.
“Os advogados são bons a trabalhar, mas maus a cobrar e a faturar. Por isso, há que fazer sobressair essa dimensão mais comercial da sua atividade. E os advogados não gostam disso. Tem de haver alguém com essa postura, para sair e ir procurar clientes. Esta é uma atividade igual às outras”. Reforça. Para o gestor, um advogado procura e bate-se por objetivos semelhantes a qualquer profissional: “Todos queremos a mesma coisa. Queremos progredir na carreira, e, portanto, tem de haver um caminho definido dentro da organização, planos de desenvolvimento de carreira adequados e justos. O recrutamento tem de ser visto como um processo estratégico fundamental para a empresa, da mesma forma que é preciso desenhar planos de formação à medida, com forte enfoque nas técnicas de venda, no networking, nos sistemas de informação.” Assim, foi responsável pela aplicação de um novo sistema de avaliação, para sócios e advogados, que permite analisar com maior detalhe os recursos e a respectiva produtividade. “Não tenho dúvidas em dizer que este é o escritório mais sofisticado do país”, afirma. A comemorar 20 anos de existência, a SRS fatura anualmente perto de 13 milhões de euros.
“Um dos meus principais objetivos, enquanto gestor, e independentemente da empresa, é perceber o mundo onde estou. Esta tem sido uma grande escola para mim”, assevera. Na verdade, não é tanto o conhecimento técnico próprio do direito que o desafia, pois quem tira “uma licenciatura em Gestão e trabalha em empresas tem uma preparação razoável em direito, essa é a parte mais simples”. É sim a dimensão relacional e humana o seu maior teste enquanto profissional. Diz, com humor: “A transformação de mentalidades, dentro desta classe, é difícil. É muito conservadora, cheia de iluminados e de gente que acha que sabe tudo. E o meu papel passa por aí: explicar porque razões é que a empresa tem de adotar métricas de produtividade e a atividade tem de se reger por critérios próprios de gestão. Noutras experiências profissionais anteriores, tive mais desafios técnicos que tenho hoje”.
José Manuel de Carvalho gere a SRS & Associados, e está a investir em força em ferramentas informáticas que permitam aos profissionais da organização (ao todo 120, a contar com um pequeno escritório associado no Porto) terem acesso ao seu próprio business plan e ao orçamento pessoal que têm de gerir. “Tais ferramentas transformam-nos nos gestores que não eram até pouco tempo. Nove anos depois de cá ter chegado, falo com eles uma linguagem financeira que, antes, era impossível. Hoje, os advogados são obrigados a perceber de gestão”, esclarece José Carvalho. “Ainda se trata de um setor com uma gestão própria do século passado e que padece de uma necessidade muito grande de profissionalizar os procedimentos de gestão”, afirma o gestor, de 55 anos, que veio do mundo das multinacionais para os meandros da advocacia: “Tem sido um processo interessante. Até porque não é surpresa que tenha uma visão que não coincide muito com a visão de um advogado”, afirma.

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